Este blogue tem conteúdo adulto. Quem quiser continuar é risco próprio; quem não quiser ler as parvoíces que aqui estão patentes, só tem uma solução.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Adeus...

... 2013


domingo, 29 de dezembro de 2013

2013 a acabar

Pensei fazer um resumo do que de bom e mau aconteceu neste ano que está quase a terminar. Porém, como sou um pouco esquecido, o mais certo é não referir algumas das coisas que me aconteceram.

O ano começou com desgraças meteorológicas, afectando quase todo o país, em especial aqui a zona Oeste. Não foi a falta de electricidade que me marcou, mas de certo modo teve algo a ver com o "corte", um dos momentos mais marcantes que vivi.

O resto do ano foi praticamente igual. Diferente talvez a minha vontade de fazer praia, uma novidade na minha vida. Dois dias durante o verão, alguns já fora dele. O mar é presença constante na minha vida. Um ribatejano que não vive sem o mar (rsrsrs) é algo interessante, dirão alguns.

Não vou referir aqui os acontecimentos nacionais mais importantes, mas não posso esquecer a eleição de um novo papa, as mortes da Thatcher, do Mandela e de mais algumas personalidades de outras áreas. A crise que nos acompanha e que teima não nos deixar viver mais desafogadamente, a austeridade que está no pensamento diário, as contas que parecem aumentar e os recursos mais parcos.

Novos objectivos são traçados para o ano que se avizinha. A saúde está em primeiro lugar, já é tempo de me preocupar verdadeiramente enquanto posso, pois atingirei a idade em que tudo o que entra demorará mais a sair. Quero mesmo aprender a tocar guitarra, preciso de um passatempo que me afaste um pouco mais da televisão e até da internet; a par quero também apostar na leitura, pois é hora de poder discutir os assuntos que os outros também discutem e é nos livros que se encontram os melhores temas.

Quero continuar a apostar na amizade, pois é nesse campo que por vezes tenho alguma dificuldade. Abrir o espectro de amizades é assim uma forma de melhor aproveitar o tempo que me resta. "Amigo verdadeiro vale mais que o dinheiro."

Outros objectivos estão na "calha", mas esses estão reservados unicamente às páginas dos meus escritos mais secretos. Pode ser que um dia sejam revelados. Como dizia o outro, "às vezes é necessário manter o suspense e o segredo".

Resta-me apenas desejar um ano cheio de conquistas a quem inadvertidamente por aqui passa. Voltem sempre que quiserem, pois este espaço é aberto e é sempre bem vindo quem vier por bem. Um abraço especial ao meu blogue, para que continue a ser a companhia de que tanto gosto.

PS: Um abraço especial para o amigo Pinguim que me proporcionou um jantar de blogues, um dos momentos que realmente não poderei esquecer em 2013. Obrigado e que toda a felicidade te atinja em 2014!



quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Mitos



Com muita força de vontade os raios solares trespassaram a espessa camada de nuvens que cobria o céu. Quando tocaram a superfície da água espalharam-se e o mar, como que a gostar daquele calor, acalmou a fúria das ondas.

Aos poucos aquela mancha de luz reflectida foi-se aproximando e com ela sons que me enfeitiçaram a alma, fazendo-me cair num sonho e esquecer o mundo em redor.

Os sons não eram mais que o canto de duas sereias, que a partir do mar, lançavam em minha direcção. Fui totalmente enfeitiçado, já nem sentia o meu corpo, nem o frio que o vento transportava e flagelava todas as pequenas áreas de pele expostas, que a roupa não tapava.

Deixei-me ir ao som de tal encanto, como se toda a minha vontade tivesse sido roubada. Abri porém os olhos e deparei-me com o abismo, mais um passo e fundir-me-ia com as ondas do mar.

As sereias quando perceberam que as linhas do encanto tinham sido quebradas, pararam de cantar. Foi então que os raios solares começaram a perder as forças e uma vez mais as nuvens ameaçaram o céu. As sereias partiram e aos poucos a luz. Ganhou uma vez mais a força das nuvens e só então entendi que o abismo não é uma solução, mas apenas um atalho, em que o resultado final é unicamente uma triste e simples gota salgada.


Hoje, junto ao mar (16:53h)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Aviso

Este blogue vai entrar em modo "festividade".

 Desejo a todos os crentes boas festas.


Para os restantes fica a humilde opinião que é preferível acreditar no desconhecido que ficar apenas a gozar das delícias da época.

Olarecas

domingo, 22 de dezembro de 2013

Um verdadeiro artista


Cresci a ouvir boatos sobre um humorista português cujo maior feito foi ter dado uma cara nova à comédia televisiva em Portugal. É certo que nunca gostei muito de algumas das personagens criadas, mas são a meu ver como "marcos históricos" que ainda são relembrados nos dias de hoje. "O tal canal" fica sem sombra de dúvida nas minhas memórias de criança, não por gostar mas sim porque era o programa que o então Canal 1 da RTP nos enfiava em casa todos os sábados à noite.


Comecei a apreciar o trabalho do Herman José já após a segunda metade da década de noventa, do século passado (é giro referir-me ao século XX), quando rumei a Coimbra para me formar na profissão que hoje exerço, felizmente. Na altura o programa em voga era o "Herman Enciclopédia", programa seguido religiosamente pelos meus colegas de casa, à terça-feira, se a memória não me falha. Foi um programa realmente marcante, ainda por cima com a companhia de brilhantes actores, infelizmente alguns já deixaram a existência terrestre, ficando porém na minha base de dados mental.


Seguiu-se o "Herman 97" em que a comédia aliada à entrevista passou a ser, no meu entender, um casamento perfeito. Era um formato já muito explorado noutros países e foi sem sombra de dúvidas muito bem integrado na nossa cultura televisiva e com boa escolha na apresentação. Quanto à apresentação, recordo um programa que em tempos deu na RTP 2 em que precisamente o Herman José fazia entrevistas, porém deixando de fora o seu lado normalmente humorístico. Comprovou assim a sua versatilidade enquanto actor, apresentador, personagem televisiva.


Não vou referir a sua passagem pela SIC, que reconheço ter começado muito bem, tendo-se estragado com a necessidade de de criar audiência. Ficam porém alguns (bastantes) bons momentos televisivos, infelizmente alguns de fraca qualidade, claro que não era intencional por parte do apresentador mas sim da direcção de programação.


A volta à RTP fez mexer um pouco com o homem que muito mal disse da televisão pública e que o próprio reconheceu numa entrevista na altura. Não foi culpa sua na totalidade, mas há sempre a necessidade de se ser comedido nestas coisas, pois nunca se sabe quando uma porta se fecha e a única que resta é aquela por onde se saiu. Há que se ser humilde em tudo na vida, excepto naquilo que se faz bem.


Ontem no programa "Alta Definição" da SIC, tão bem apresentado pelo jornalista/apresentador Daniel Oliveira, o entrevistado era o Herman José. Apanhei a entrevista já com o humorista a falar dos últimos momentos de vida terrena do seu pai. Mas não é deste momento que recordo, mas sim de outros que me marcaram, não pelo seu lado humorista que sempre o acompanha, mas pelo seu lado sério. Podem dizer o que bem entenderem deste senhor de 60 anos, mas a verdade é que aprendeu com a vida e aproveitou bem o que aprendeu (digo eu que sou apenas um espectador).


Herman José consegue manter a sua vida privada longe das câmaras e das revistas. Aquele momento em 2003 foi apenas um momento, que foi devidamente curado, tal como o mesmo referiu. Foi a meu ver metido num processo só porque a sua vida íntima é desconhecida. O mais triste é ser quem tanto o aplaude que acabe por não o aceitar verdadeiramente como um normal português.


Já dizia o Diácono Remédios




quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Ramiro

Ramiro era louco por minhocas. Enquanto fosse dia, o jovem galo, andava constantemente de cabeça para baixo em busca daqueles insectos gelatinosos de tão bom sabor. Preferia as azuis, as mais raras e por isso mais valiosas.

Apesar de seu porte de respeito e das penas multicoloridas que brilhavam ao sol, as minhocas, distraídas por natureza, nunca davam pelo galito. Já era tarde demais quando o bico fazia pontaria à sua presa.

Os galos mais velhos, em especial o chefe do galinheiro que tanta inveja sentia pela beleza do novato e que sabia bem ser o seu sucessor natural, andavam sempre a avisá-lo para não andar sempre de cabeça para baixo. Não teria sempre a sorte da vigia do céu por parte dos colegas, já que era precisamente do céu que o maior perigo descia, uma águia real, que tinha fugido de um circo que em tempos passara na aldeia e que agora assombrava todo o vale.

Certo dia Ramiro, na sua azáfama tão habitual, decidiu que aquele dia seria diferente, pois o objectivo era caçar uma minhoca azul, daquelas que já não encontrava à bastante tempo. Tinha esgravatado todo o quintal e nada, optando por se aventurar além fronteira, invadindo um descampado vizinho, terreno novo, totalmente desconhecido.

Finalmente encontrou a maior e mais gordinha minhoca azul de sempre. Seria um verdadeiro banquete naquela tarde, um festim, a inveja de todos os que tinham ficado no galinheiro.  Porém aquela minhoca não era um insecto qualquer. Era um espécime conhecedor de várias línguas e dominava bem o dialecto do seu caçador. E mais ágil também, escapando diversas vezes às investidas do bico agressor, um desafio tentador para Ramiro.

"Não me comas Ramiro." - disse-lhe deixando o bicho abismado, por ser conhecido daquele lado da cerca - "Nunca se sabe quando precisarás de mim."

"E que pode uma deliciosa minhoca azul fazer por mim?" - questionou o galito.

"Posso por exemplo avisar-te que neste preciso momento em que me tentas bicar, a águia que patrulha o céu já te faz pontaria e possivelmente já não te safas."

Apesar de desconfiado, lembrou-se dos conselhos dos galos velhos. Por instinto deu um pulo em frente, escapando às garras da ave de rapina por a distância correspondente ao tamanho de uma minhoca verde.

Ramiro safou-se à conta do aviso daquela minhoca azul. Agradeceu e partiu, deixando-a viver. A partir daquele dia passou a ser mais atento ao perigo vindo do céu, não perdendo porém o vício por minhocas, deixando de procurar minhocas azuis e fixando-se especialmente em minhocas verdes. Afinal as azuis já não habitavam no seu quintal e necessidade não havia de correr perigos noutras paragens.

Moral da história: Vale mais uma minhoca azul que um galo vistoso distraído.

Ou

Uma minhoca deliciosa não vale o ataque de um inimigo.

Tomaaaa...

18 de Dezembro de 2013 (8:30 - 9:00)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Memória de outro tempo - António Aleixo


Se existe poeta popular que esteja no pódio dos meus favoritos é sem dúvida o António Aleixo. Foi com ele que aprendi em tempos o prazer de criar poesias. Uma pessoa de tão poucos estudos ensinou-me mais do que muitos professores de português.

Ao ler os versos que deixou escritos, quantas vezes tão actuais, ainda me fascino. Algumas das minhas composições que por opinião própria são as mais complexas, vêm da inspiração que o poeta popular de Vila Real de Santo António despertou na minha cabeça.

Foi com o António Aleixo que comecei a criar em tempo poemas com "mote" e "glosas". E foi com algumas das melhores quadras do Aleixo que transformei em mote que construí as melhores dedicatórias a esse grande poeta.

Mote

Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
Ver as coisas mais além
Do que alcança a nossa vista!

                               António Aleixo

Glosas

Nem só o trabalhador
Pode ter identidade
Porque a igualdade
Foi-nos dada pelo criador.
É com um pouco de dor
Se um dia a mim vem
E diz que sou ninguém;
Só o diz por ter inveja,
Pois não há ninguém que não veja
Que ser artista é ser alguém!

É bonito ser doutor
Também o é ser engenheiro
Ou até ser pedreiro
Ou mesmo lavrador.
Desde o alpinista
Ao pianista
É bonita qualquer profissão,
Pois sabe o parvo ou o sabichão
Que bonito é ser artista.

É bom ver a luz que alumia
Ver o real e o imaginário
Ver o bom e o ordinário.
Tal como o mestre da astrologia
Que prefere a noite ao dia,
Para ver bem
As surpresas que o céu tem,
Também o artista
Usa o seu ponto de vista
Para ver as coisas mais além.

O artista, vê de tudo
O que aprende por sua mão
Tal como o cego com a escuridão
E o surdo com o mudo;
Ver as coisas do mundo.
E não ser egoísta
Como não o é o artista
Ou o poeta também,
Que vêem as coisa mais além
Do que alcança a nossa vista!

      Maio/Junho de 1998

Na realidade a métrica não está grande coisa, mas este foi apenas o segundo poema escrito com décimas (estrofes de 10 versos). Mesmo assim foi uma grande novidade na minha poesia da altura. O texto em si parece também não fazer grande sentido para que o leia pela primeira vez, também o é para mim já que o passei directamente do rascunho e não transcrevi a versão final que não tenho aqui comigo no momento. Essa sim, tem um outro efeito final.

Ao António Aleixo devo quase mais de 15 anos de poesia. Sem esse grande mentor eu seria apenas mais um poeta incógnito. É certo que me mantenho incógnito, mas pelo menos um pouco mais versado. (rsrsrs)




domingo, 15 de dezembro de 2013

Com dedicatória a Coimbra

Mote

Podes pensar que sou infeliz
Por viver nesta solidão:
Mas vivo a vida que eu quis
Apesar de ser um só coração.

Glosas

Sou metade de um par
Lá nisso tens toda a razão;
E passo a vida a cantar
Em rimas, minha solidão.

     Sou metade de um poema
     Escrito com muita dor;
     Sou um só neste sistema
     Em que só eu dou amor.

Sou metade de uma vida
Peço a Deus a outra parte;
Mas é súplica perdida
Pois nem para pedir tenho arte.

     Sou metade de um brinco de cereja.
     Até esta fruta tem mais sorte;
     Vivo de constante inveja,
     Não sabendo qual o meu norte.

Sou metade do que tu pensas,
E pensas que sou infeliz?
Não venhas com fé ou crenças,
Vivo a vida que sempre quis.

     Sou metade de um momento
     Pois vivo nesta solidão.
     Sou metade do pensamento,
     Sou parte de um só coração.

Coimbra, 09 de Dezembro de 2000 (03:23 h)


2

Que manhã tão complicada, até o centro comercial estava a abarrotar. Na zona da restauração a enchente era tanta que encontrar uma mesa vazia era simplesmente uma missão impossível. Já de tabuleiro nas mão, avistei um lugar vago numa mesa dupla. Não me fiz rogado e dirigi-me ao local e pedi se me podia sentar.

Qual o meu espanto quando reparo que eras tu que estavas sentado à mesa. Não te via há uns três meses, desde aquela festa em cada da nossa amiga comum. Convidaste-me a sentar e aproveitámos para colocar a conversa em dia.

De quando em vez os nossos olhares cruzavam-se e eu sentia um calafrio a percorrer o meu corpo. Tu desviavas o olhar e notava-se um ruborzinho nas tuas faces. Ficavas ainda mais bonito com aquela cor, como se se notasse ainda réstias da meninice que ainda habitava em ti.

O tempo passou, meia hora talvez. Acabaste de comer e tinhas que ir embora. Demos um aperto de mão e para despedida pedi-te o contacto telefónico. Coraste um pouco mais, foste com uma mão ao bolso do casaco e tiraste um cartão de visita azul. E eu nem sequer uma caneta tinha para te retribuir.


sábado, 14 de dezembro de 2013

Sonho de uma tarde de verão

Não consigo esquecer aquela tarde de verão. Aquela em que ao vires ter comigo, me dirigiste as mais belas palavras que alguma vez ouvi.

A esplanada estava quase deserta, algo anormal para uma amena tarde de verão. Talvez por já ser muito perto do outono, quando as férias já são um passado distante para os comuns dos mortais. No entanto, estávamos os dois disponíveis e tínhamos combinado o encontro precisamente para aquele espaço.

Pediste um café para acompanhar um lindíssimo pastel de nata que estava na vitrina dos doces. Eu fiquei-me pela habitual água com gás, estupidamente fresca. Ficámos a apreciar a vista, onde se avistavam alguns barcos de pesca ao longe e uma mão cheia de pescadores amadores, com as canas de pesca ao alto, já na rebentação das ondas.

"Já te disse hoje que te amo?" - perguntou-me. "Ainda não." - respondi embora não fosse verdade, pois já me tinha dito isso diversas vezes: quando acordámos, quando me mandou mensagens ao longo do dia e quando finalmente, cerca de duas horas antes,  me telefonou a combinar aquele lanche.

Sorriu, deu uma última dentada no pastel, limpou os lábios e num terno tom voltou a dizer-me: "Amo-te".


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Última hora


sábado, 7 de dezembro de 2013

1

Conhecemo-nos numa festa de uma amiga comum. Eu já bem perto das quatro décadas de vida, solteiro, trabalhador. Tu recentemente a trabalhar na capital numa grande empresa farmacêutica, natural de Aveiro, com pouco mais de três décadas neste mundo e muitos sonhos pela frente.

Lembro como estavas tímido nessa noite. Eras afinal um quase desconhecido naquele evento privado. Colega da nossa anfitriã, praticamente sem conheceres a maioria dos presentes. Eu era já costumeiro na casa e nela me movimentava quase como se fosse minha. Conhecia já todos os cantos da mesma e como os donos da casa diziam, eu era visitante assíduo da cozinha e especialmente do frigorífico.

Estavas sentado junto à lareira, de copo na mão, olhando em redor, como se esperasses que alguém metesse conversa contigo. Eu cheguei e perguntei se estava tudo bem. Olhaste para mim e disseste que apenas te sentias um pouco deslocado. Naquele momento, quando os nossos olhares se cruzaram, senti um arrepio. Deves ter sentido o mesmo, pois desviaste o olhos em busca de um ponto que te desconcentrasse.

As horas foram passando e quase nos esquecemos que estávamos numa festa, rodeados de outras vinte pessoas. Na verdade estávamos sozinhos, pelo menos era essa a minha percepção, pois chamaram-me várias vezes e nem dei por isso. Porém a nossa amiga comum arrastou-me até à cozinha, havia um problema que só eu saberia resolver.

Quando a festa acabou dei-te boleia. Mal conhecias a cidade e afinal a minha casa ficava na mesma direcção. Ainda era cedo e passámos por um café, onde nos sentámos na mesa mais distante do balcão. Bebemos chá, acompanhado por uns bolinhos secos que restavam na vitrina. Uma hora depois fomos embora, entrámos no meu carro e arranquei.

Deixei-te à porta do prédio. Tão estúpido que fui, esqueci-me de pedir o teu contacto.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Desafio

Quem participou no último jantar n'O Guilho, em que se lançou o livro do Miguel, deve-se recordar que levei comigo um rapaz que além de ser artista e trabalhar com crianças, lançou um desafio aos presentes que consiste na criação de textos ou histórias temáticas para os mais pequenos.

Neste momento este meu amigo está quase a editar um livro, que penso que deve sair ainda este mês ou no início do próximo e já está a pensar no próximo, já que a sua editora mostrou interesse nesse novo projecto. Assim pediu-me que lançasse de novo o desafio para quem estiver interessado. As histórias serão depois devidamente ilustradas, já que se destinam a leitores infantis.

Este blogue apoia qualquer tipo de iniciativas que envolvam crianças, já que temas que ainda são tabu, apesar de já divulgados a nível mais adulto, ainda não estão ao alcance da franja de leitores mais jovens, que são os homens e mulheres do futuro.

Quem tiver ideias entre em contacto comigo pelo endereço oficial do blogue - ribatejanooeste@gmail.com

Aventurem-se.

Do not forget


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Constipação

Certos acontecimentos da vida dão-me inspiração para escrever coisas assim:


Se os dias pareciam grandes demais, as noites eram intermináveis. O calor invadia todo o meu corpo e o suor saía de cada poro e viajava pela pele, alojando-se na roupa. Dores trespassavam todos os músculos, chegando aos ossos. E aquela névoa que rondava cada célula que povoa a minha cabeça, acompanhando aquela matéria viscosa que saía da cavidade nasal em fios intermináveis.

Sentia-me completamente desprotegido, fora atacado como nunca antes tinha sido. A fraqueza estava instalada em mim, arrastava-me para o mais fundo que alguma vez sentira. O silêncio, só interrompido pelos gemidos que timidamente me saíam das cordas vocais, mantinha-se tão frio como o ar que preenchia cada espaço livre da casa.

Foi então que me pareceu ouvir, lá longe, o rodar da chave na fechadura da porta da rua. Senti uma pequena vibração provocada por cada passo no frio chão de mosaico. Olhei em direcção da porta e imaginei a maçaneta a rodar aos poucos, por causa dos rangidos que dela vinha. Naquela meia penumbra vi uma sombra aproximar-se da cama, um peso extra em cima do colchão e uma mão em minha direcção.

“Pronto, já cá estou…”

Fechei os olhos e saíram duas lágrimas. Um par de lábios tocou os meus, que por puro instinto se entregaram sem sequer se certificarem se se tratavam de objectos estranhos ao corpo. E naquele momento, como pura magia, o calor que me invadia diminuiu, as dores desvaneceram-se e uma sensação de bem-estar invadiu o corpo tão enfraquecido.


Ao fim de três dias aos teus cuidado senti-me completamente renovado. Uma nova primavera caiu sobre mim e em seguida outro verão acabou por se instalar definitivamente no nosso espaço.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Frio

É oficial: estou a "curtir" a primeira constipação da época. É o resultado de andar agasalhado demais, tanto em ambiente frio como quente. Apesar do frio suo bastante e depois a humidade que fica no corpo, etc etc.

Hoje vou-me ficar por uma canjinha de frango. Se calhar junto-lhe um pouco de verdura, só para experimentar. Não me apetece realmente nada mais pesado, além disso amanhã é dia de ir "vender" um pouco de sangue, para saber como estou de colesterol. Ando a fazer medicação e ficarei a saber se está a fazer efeito ou se terei que mudar de medicamento.

Andei de volta do jardim quando cheguei a casa. É tempo de poda e a minha figueira de estimação estava bem necessitada de um "corte de cabelo" a pente 2. Fico com a casa mais à vista, mas pode ser que assim entre um pouco mais de sol, embora seja difícil. Assim que anoiteceu retirei-me para o castelo, tomei um banho quente, calcei as pantufas e só volto a sair de casa para dar o jantar ao canito.

Ando a ler blogues... aproveito também para sonhar... tirar ideias para o futuro... nunca se sabe...


domingo, 1 de dezembro de 2013

Como se

Como podes pensar que não te quero
se todos os dias penso em ti.
Como podes achar que não te sinto
quando te sinto perto de mim.
Como podes estar tão longe
se perto serás mais feliz.
Como podes tantas coisas
se na realidade não estás a meu lado.

Espero por ti...


Passagens

Despertei para a escrita com 15 anos. Poesia principalmente. Era o tempo em que me considerava um poeta popular. E por assim me ver, comecei a participar em encontros de poetas aqui da zona. Eu era o membro mirim de um clube de gente já bem entradota e para quem a poesia escorria a cada frase que os lábios pronunciavam.

Certa vez, uma poetisa popular, virou-se para mim e disse-me que não gostava da minha escrita. Foi sincera e passados todos estes anos só lhe posso agradecer, mesmo que de forma anónima. Também nunca gostei do que a senhora escrevia. Não gosto que coloquem as pedras da calçada a chorar, só porque alguém teve uma contrariedade na vida. Deixei de me considerar poeta popular para passar apenas a ser poeta.

Relembro esta passagem da vida porque recentemente alguém me disse algo semelhante. Porém, ao contrário do que fiz no passado, em que escolhi afastar-me de quem não me aceitava no grupo, decidi desta vez que ficarei. Não me preocupo com as opiniões, mesmo as positivas. Escrevo de mim para mim e é isso que me interessa.

Não quero figurar em livros, pois já tive essa experiência e apesar de ter sido interessante e por uma boa causa, não estou afim de criar uma colecção própria. Mantenho-me por este espaço ou pelo meu arquivo pessoal, onde um dia alguém poderá ler o que não tenho coragem de mostrar publicamente.

Cresci e aprendi. É importante a opinião de quem está à minha volta e daqueles que me entendam, no entanto o primeiro crítico à minha escrita serei sempre eu. É assim que me sinto bem e quem não gostar tem uma boa solução, passe ao blogue seguinte. Pode ser que encontre melhor.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Musicas

Fado com um cheirinho a samba


À Inês


À paixão


Mensagem 260

Quando comecei o blogue nunca esperei atingir sequer as 200 publicações. Esta é a mensagem número 260 e já começa a ser complicado escrever coisas novas. Existem porém temas em que não me importo de voltar.

Não me vejo a morar longe do campo. Se bem que por estas bandas o que não há falta é de campo. As cidades não têm mais de meia dúzia de quilómetros de um lado ao outro, tudo o resto em volta é verde.

Para quem passa a vida a sonhar com uma casinha rodeada por verde e espaço para cultivar flores, nem sabe da "missa a metade". Imagino-me muitas vezes dentro de um apartamento, num prédio alto (que costumo por designar por aviário vertical) sem ter a necessidade de me preocupar com uma série de coisas. É o canil a precisar de limpeza, cortar as ervas, podar as árvores, limpar algerozes, abrir valetas, manter a rua limpa. É cansativo mas pensando bem, antes o campo que a loucura da cidade grande.

Afinal a cidade grande não está tão longe como parece. Para um lado tenho Caldas da Rainha, para o outro Torres Vedras. São os dois "monstros" urbanos da zona. As restantes urbes são apenas gotas no território oestino: Peniche, Óbidos, Lourinhã, Alcobaça, Rio Maior. Mais poderia referir mas são estas as quais tenho algum tipo de ligação.

Durante esta manhã, em que fiz diversos quilómetros de caminhada forçada, por questões profissionais, lembrei de pequenos episódios que já me aconteceram, histórias quantas vezes inacreditáveis. Recordo gente da cidade grande (Lisboa) que sempre sonhou com o campo e decidiu cá comprar casa. Depois queixam-se do cheiro do estrume nas terras, do toque nocturno do sino da igreja para anunciar as horas (proibido no âmbito da lei do ruído, algo que acho um tremendo disparate), das estreiteza das estradas e até do galo do vizinho estar sempre a cantar. Que querem?! Isto é o campo, não a cidade com jardins em redor.

Sou feliz onde moro (embora pudesse ser mais) e não o troco. Gosto de ir à cidade grande, para estar com os amigos que moram lá, para passear ou porque tenho mesmo que ir. Tal como os urbanos gostam de vir visitar o campo. Trata-se apenas de uma mudança de ares, que todos gostamos.

Pensei colocar umas fotografias ilustrativas, mas não me apetece agora. Pode ser que volte e enfeite um pouco mais o texto, pois já me dizem que estou a ficar literariamente sorumbático.


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Coisas da vida

Odeio dias como o de hoje. Se na rua não se pode estar devido ao vento cortante e frio que me enregela até os ossos, dentro do escritório quase parece verão. Ando com roupa para me manter quente e depois fico com o corpo suado, sinto-me desconfortável.

Cada vez mais gosto de trabalhar só com homens. Não que não goste da companhia delas, simplesmente são mais picuinhas. Gosto de simplicidade, de poder falar à vontade e não ter receio de ferir susceptibilidades, ainda mais quando as colegas são loiras (nada contra normalmente) que quase de tudo fazem para dar razão a todas as anedotas que conheço sobre o assunto. Só me apetece deixar cascas de banana pelo chão.

O meu cão fica louco quando o tiro de dentro do quintal. Corre e salta como um louquinho, havendo alturas em que parece mais um canguru que um canino. É engraçado como marca todo o território; há sempre mais uma pinguinha para deixar vestígios da sua presença. Está frio mas o gajo adora passar pelas poças de água, em especial se tiver lama. Depois atira-se a mim... raios.

Migas para o jantar, de pão (ou broa, conforme o regionalismo) de milho. Não faltou a couve, o feijão encarnado e para ser diferente, umas rodelas de chouriço e duas postas de bacalhau cozidas e desfiadas. Acompanhou um bom tinto e uma boa conversa comigo mesmo.

Ligo o computador e depois o velho rádio, toca "Wake me up" do Avicii. Danço como um louco (felizmente ninguém assiste) com o som no máximo (para quem passa na rua perceber que tenho bom gosto). Vejo o facebook, o mail, leio os blogues do "grupo" (como um dos membros do grupo diz) e escrevo no blogue.

Falta a chamada telefónica para a mulher que eu mais amo. Depois a cama. É no leito que crio as melhores histórias: olhos fechados, música e sonhos. Não me lembrarei de nada amanhã, talvez seja essa a minha sorte.

Bom dia


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Deus

Não sei como é possível que se viva sem acreditar...

... será que se vive?


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Humor

Às vezes esqueço que quem está do outro lado pode não ser tão bem humorado como eu, há quem viva de forma séria.

Eu prefiro viver sempre com um sorriso nos lábios ou uma boa gargalhada.

São feitios...


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Sopa

Outono gelado. Noite.

Acendi a lareira e sentei-me no sofá. O computador ligado assim como a televisão. Acompanho um jogo de curling, embora não perceba muito do assunto. Joga a Alemanha contra a Noruega, equipas femininas.

Acabei de comer uma sopa feita ao cair da noite. Receita simples, com ingredientes que estavam no frigorífico. Colhi uma courgette que ainda cresceu no jardim. A próxima não deverá vingar por causa do gelo.

Aqui estou. O calor enche a sala aos poucos, embora seja complicada de aquecer. Um salão de baile neste castelo frio. Aos poucos o calor da lenha de oliveira diminui o frio que se faz sentir em alguns cómodos da casa. Lá fora está bem pior.

Não falta o calor do fogo... falta o restante...


sábado, 23 de novembro de 2013

Engate

Decidi que estava na hora de sair em busca de outro engate. Passei por todos os locais conhecidos e nada de encontrar o que pretendia. Uns engates eram demasiado velhos, gastos. Outros pareciam ser muito frágeis. Aquele era muito grosso. Um que não inspirava confiança.

As opções estavam a esgotar-se e eu, já quase desesperançado de encontrar o que realmente queria, resolvi àquele lugar que tantos falavam mas que nunca tinha tido coragem para lá ir.

A escolha era enorme e cada vez que vasculhava mais engates apareciam. Era tanta a escolha e na realidade apenas encontrava mais do mesmo: sempre o que encontrei nos outros lugares conhecidos.

Não havia outra escolha, tinha que ir em busca de um engate novo. Lá teria que desembolsar a quantia que estava destinada a outros assuntos. Dirigi-me ao local a que sempre tentei fugir. Por ironia do destino, já não havia o engate de que eu tanto precisava.


Raios. Como é que vou agora atrelar ao carro o reboque que tenho para ir à lenha?

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O conto da Margarida

O grupo reunia-se invariavelmente todas as noites. Um grupo de membros heterogéneos que preenchiam cada um dos lugares disponíveis. Não havia liderança. Os mais velhos davam a palavra aos mais jovens embora se notasse um respeito por parte dos últimos pelos que tinham mais experiência de vida.

O grupo era dono da noite, todo o espaço circundante lhes pertencia. O barulho provocava os cães e os outros moradores, os que viam na noite a oportunidade de descansarem para um novo dia de trabalho. Várias eram as vezes em que baldes de água, latas, sapatos velhos, voavam em direcção aos membros, que fugiam e gargalhavam pela falta de pontaria.

Não eram vagabundos. Assim que surgiam os primeiros raios de sol, retornavam a casa. Deitavam-se de papos para o ar, refastelados ao sol, na protecção das intempéries. Comiam e bebiam e à noite voltava aquela lufa-lufa que tinham já vivido na noite anterior.

Certa noite algo estava diferente, o número de membros diminuiu. Os mais velhos deram pela falta de duas mais novitas, que normalmente o acompanhavam, quase coladas. As duas em questão eram bem diferentes do resto do grupo, queriam mais do que os outros na realidade lhes podiam dar. Tinham sede de saber, conhecer o que se passava além das fronteiras quase rígidas, impostas pelas gerações anteriores. Afinal o mundo era tão grande e custava-lhes ficar limitadas àquele território.

As noites passaram e não apareciam. Um dos mais velhos, curioso, dirigiu-se então à sua casa, já que viviam juntas. Queria uma explicação, não queria acreditar que aquelas duas se tinham fartado do grupo. Estariam doentes?

Foi então que descobriu a verdade. As duas, ávidas de saber, passavam as noites em casa acompanhando aquela que lhes podia transmitir as coisas que o resto do mundo tem. As prateleiras repletas de livros, evidenciavam as longas noites de leitura e aprendizagem que aconteciam naquele espaço. O ancião do grupo entendeu então qual a razão para a ausência das duas.

Perceberam que estavam a ser observadas do lado de fora da janela. Uma delas foi então ao exterior e falou com o vulto. Explicou-lhe que a ausência devia-se ao facto da sua dona estar sozinha em casa e precisar de companhia. Em contrapartida os livros davam-lhes conhecimentos, daqueles que o grupo não conseguia satisfazer.

Tal como prometeram ao ancião algumas noites antes, as gatitas retornaram ao grupo algumas noites por semana. Passaram elas a ser as mais entendidas em diversos assuntos. Não se deixavam porém levar pelo conhecimento. Tinham novas histórias para contar e acima de tudo respeitavam os outros membros do grupo.

Margarida sentia-se bem junto dos seus livros e das adoradas gatas, que apesar de passarem algumas noites deitadas junto a ela, pareciam absorver todas as palavras que lia, evidenciado pelos movimentos constantes das orelhas das duas aprendizas. Livros e companhia das gatas… afinal já pouco faltava…



Desculpem...

... qualquer coisinha.

Às vezes é preciso pedir desculpa, mesmo quando acho que não há razões para isso. Nunca se sabe...


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Momentos

Mal entrei em casa atirei-me para o sofá. O dia foi mais complicado do que previra quando acordei na manhã daquele dia. Só me apetecia fechar os olhos, entregar-me à sonolência. No entanto percebi que algo estava errado. Silêncio completo. Um silêncio arrepiante, como se eu estivesse num castelo abandonado e não num apartamento. Olhei em volta e notei que haviam rosas espalhadas pelas prateleiras dos livros, penduradas nos quadros e junto à porta do corredor um montinho de pétalas de diversas cores. Levantei-me e segui o colorido e a fragrância que emanava do chão. Aquele carreirinho levou-me à casa de banho, onde uma banheira com água quente e alguma espuma esperava por mim. Não me fiz rogado, despi-me e entrei naquele banho quase celestial. A espuma tinha o cheiro que eu tanto gosto. Junto à banheira um copo de vinho tinto. Foi então que apareceste e com um sorriso nos lábios entraste na água e sentaste-te junto a mim. Senti a tua pele, o suave toque dos teus lábios roçando os meus. Ficámos ali, em completo silêncio só interrompido por ténues chapinhares, esperando que a água arrefecesse e que tivéssemos que partir para outros prazenteiros momentos.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Diário frio

Pouco passa das seis horas da madrugada e cá estou eu de volta do meu diário. Acordei às 5, resultado de ter deitado demasiado cedo na noite de domingo. Foi o frio que me fez ir para o leito tão cedo, depois de um banho quentinho para aquecer os ossos. Liguei o rádio despertador, troquei algumas mensagens e entreguei-me ao reino dos sonhos.

Não consigo estar demasiado tempo na cama, pelo que me obriguei a levantar. Se o fizesse mais perto da hora de sair para o trabalho, seria dor de cabeça certa durante o resto do dia. É assim comigo, talvez por falta de motivos para me deixar estar mais tempo ou porque o meu corpo, já tão habituado, me prega essa partida diariamente.

Sentado em frente ao portátil, vestido, com o robe e mantinha pelas pernas, pantufas calçadas, tentando manter o quente que o corpo lança, aqui nesta sala que continua fria, tão fria como na noite de ontem. Já tomei o pequeno almoço, pelo que, pelo menos por dentro, mantenho-me mais quente. Pareço um velho, dirão alguns; outros poderão entender-me melhor.

Nenhuma história me sai das células cinzentas, talvez porque ainda não tenham acordado totalmente. Acho que prefiro o silêncio da noite para poder criar as minhas aventuras, passar para o registo alguns dos meus sonhos, já que outros ficam simplesmente a marinar, à espera de se concretizarem. Esses, os mais pessoais, ficarão apenas na minha memória, podendo quiçá serem lidos por quem tenha alma tão desconcertante como a minha, quem me compreenda e se reveja em mim.

Diz o meu maior crítico que só escrevo disparates, que cabe a mim passar das frases aos momentos, que só eu posso transformar o virtual em realidade. Respeito a sua experiência e tento até aprender com ela, porém por enquanto, deixo-me ficar no meu canto, esperando dias melhores. Que venha uma nova primavera. Entretanto ainda falta acabar o outono e decorrer o frio inverno.

                                   Deitei-me a pensar só em ti
                                   Assim faço a todo o momento
                                   Gostava de te ter sempre aqui
                                   Que me saísses do pensamento

Lembrei desta quadra agora, tantas vezes escrita ao longo dos anos. Vinte já passaram, acho eu. Duas décadas de poesia que contam grande parte da minha história. Os sonhos já referidos que de outra maneira não serão contados.

                                    Nos momentos frios de agora
                                    Que gelam até o coração
                                    Peço que peguem na mão
                                    E me levem estrada fora

                                          Escrevo apenas o que vai na alma
                                          O que nela paira a todo o momento
                                          É assim que este meu pensamento
                                          Me descansa e até acalma

                                   Que dos sonhos já tão pensados
                                   E que ficam nesta memória
                                   Pois já são a breve história
                                   De vinte anos já passados

                                          Que o frio não faça esquecer
                                          Pois o esquecimento é a morte
                                          Não quero para mim essa sorte
                                          Pois vou sempre escrever

De promessas está o Inferno cheio, já diria a avó de outro. A minha tem-se cumprido e desde que eu possa assim continuará, pois as prosas e os versos, sentidos ou inventados, bons, maus ou estragados, com bom efeito ou sem tino, continuarão a definir quem sou e serei .

                                  E antes que escreva sem nexo
                                  Apesar de sentir que já comecei
                                  Vou terminar aqui a escrita
                                  Pois nesta semana mais tempo terei.

Ribatejano, o poeta pateta


domingo, 17 de novembro de 2013

Fim

Só é bom para as coisas más, para as boas é sempre mau.

PS: Publicação número 250. Nunca pensei chegar tão longe...


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Falta

Reconheço a falta que me fazes quando percebo que não vou conseguir comer a outra metade da pizza.


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Passatempos

Certo dia meti na cabeça que deveria ser pescador desportivo. Comprei uma cana de pesca numa loja oriental e parti para a aventura. Como não há rio por aqui com peixe optei por ir até ao mar. A tarde estava boa e o oceâno mantinha-se calmo. Pousei os apetrechos, coloquei isco no anzol e atirei-o para a zona de rebentação. Talvez por sorte de iniciante logo à segunda vez pesquei um peixe. Um carapau, que apesar de tentar fugir, foi parar ao balde com água que estava junto a mim. Voltei a lançar a linha, sentei-me e puz-me a apreciar o belo carapau.

Aquele peixão fitou-me com muito interesse. A certa altura assobiou-me e olhei para dentro do balde. «Ainda bem que olhaste, aqui sinto-me sozinho.» - disse o carapau - «Se quiseres conto-te uma história do sítio de onde eu venho.». Concordei e escutei-o com atenção.

«O meu mar é imenso e tem muita vida. Tanta que o homem nem sequer conhece uma ínfima parte do que lá existe. Conheci em tempos duas Cirrhitichthys falco, que vocês aqui na terra conhecem por peixe-falcão. Eram a Ada e a Eva e eram amigas desde a altura em que saíram das ovas de onde se desenvolveram. Eram inseparáveis, onde estivesse a Ada não muito longe estaria a Eva. Metiam-se em tantas confusões, que Neptuno, o Deus que manda nos oceânos, já nem dava grande importância.

Ada gostava de cantar e tinha uma das mais bonitas vozes do mar, até as sereias tinham inveja. Já Eva era mais dada a corridas, havia quem lhe chamasse até “carapau de corrida”. As duas juntas formavam assim o par mais desconcertante. Simpáticas com todos, amadas pelos mais chegados.

Acontece que naquela espécie quando o número de fêmeas é muito maior do que os machos podem controlar, há necessidade de uma delas mudar de sexo. Neptuno escolhe quem passa a ser macho, quem se tem que sacrificar para o bem da espécie. O chefe optou por Eva, que ao contrário do que seria de esperar, ficou muito desgostosa. Não se estava a ver com o nome de Ivo, ainda menos a controlar um harém de fêmeas tresloucadas. Mais preocupante ainda era a terrível separação de Ada, que ficaria no clã do outro macho reprodutor.

Eva decidiu ir falar com Neptuno. Não haveria outra fêmea que estivesse mais interessada em se entregar por tão grande honra? Neptuno não é Deus de se deixar ir por sentimentalismos e informou-a logo que a única hipótese era ser Ada a escolhida. De qualquer das formas as duas jamais poderiam continuar a ser amigas.

Chegou o dia da transformação e Eva lá compareceu perante Neptuno. Este, num momento raro de pura generosidade e sentindo pena de Eva, decidiu então quebrar as suas regras e fazer um acordo final com Eva: dar-lhe-ia mais um dia de fêmea com a condição que o utilizasse para fazer o que lhe dava mais prazer.

Eva pulou de alegria e sabia bem como passar o dia que Neptuno lhe dava. Correu em direcção ao sítio onde Ada estava, cabisbaixa, chorando pela amiga que nunca mais veria. Eva abraçou-a e explicou à amiga que tinham mais um dia juntas. Foi o dia mais bem aproveitado de ambas, fizeram de tudo o que mais gostavam. No final do dia, Eva, chegou perto da sua amiga, beijou-a e disse-lhe que a amava e que gostaria de ficar o resto de sua vida junto da sua mais querida amiga. Porém Neptuno tinha-lhe destinado uma vida completamente diferente. Ada despediu-se da amiga e Eva partiu em direcção ao seu destino.

Por ironia do destino o macho reprodutor que tinha o harém demasiado grande fora entretanto apanhado na rede de um arrastão espanhol e Neptuno viu-se na necessidade de transformar duas fêmeas para ocuparem os dois haréns. Eva passou a Ivo e Ada foi a outra escolhida, passando a chamar-se Edu.

Algum tempo depois Ivo e Edu encontraram-se por acaso no mar e ficaram estupefactos a olharem-se mutuamente. Tornaram-se bons amigos e de quando em vez ainda se encontram para partilharem as suas aventuras.»

Olhei o carapau e pensei cá para mim que o peixe só me quis enganar, mas tive de concordar que a história era até bem interessante. Decidi então dar-lhe mais uma oportunidade e soltá-lo, deixando-o partir em paz. A velocidade com que o perdi de vista fez-me crêr que tinha soltado um verdadeiro carapau de corrida.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Culinária

Não preciso de psicólogos ou psiquiatras, chegam-me os diversos hobbies e em especial a culinária. Não encontro melhor terapia para a minha tontice.

Estava a preparar as minhas migas (estão uma delícia) quando me lembrei de uma conversa que ouvi numa esplanada.

1ª voz - Hoje convidaram-me para trabalhar fora do país mas não aceitei.
2ª voz - Então porquê?
1ª voz - Porque não consigo viver tão longe de ti.

(silêncio)

2ª voz - E se eu fosse contigo?
1ª voz - Mesmo assim não aceitaria, pois sei que tens cá as tuas raízes e eu jamais queria que te afastasses delas.

As coisas de que me lembro enquanto preparo os meus pitéus...


domingo, 10 de novembro de 2013

deshumores

Às vezes fico mal humorado sem razão aparente.

Há quem diga que é por me esconder demasiado.

Não entendo o significado do que me dizem.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Culinária e outras estórias

Ingredientes:

5 dentes de alho
1 cebola média
meia beringela
dois tomates médios
cenouras a gosto
azeite
1 caldo de carne
água

Preparação:

Picam-se todos os ingredientes colocam-se num tacho e vai a cozer. Depois de cozido, triturar e juntar um pouco mais de água, para o creme não ficar tão grosso. Juntar feijão cozido e arroz ou massa. Deixar apurar, corrigir os temperos e não esquecer o picante, para quem apreciar. Serve-se a sopa quentinha e guarda-se a restante no frigorífico, após arrefecer.


Estava a preparar a sopa quando me lembrei do velho Pedro, Mestre Pedro como o povo lhe chamava, por ser um dos melhores marceneiros das redondezas. Do Mestre Pedro já ninguém sabia a idade, todos se tinham habituado à velha oficina de onde saiam belas peças de mobília ou outros arranjos, que o velho homem sempre desenrascava quem precisava. Nas tardes de primavera e verão a loja estava quase sempre cheia, não de clientes, mas de crianças que o ouviam a contar histórias. Não havia melhor contador de histórias, contadas vezes sem conta, há já várias gerações. Os pais das crianças tinham ouvido as mesmas histórias quando elas próprias eram petizes.

Mestre Pedro contava cada uma como se se tivesse passado no dia anterior. Gesticulava freneticamente, enquanto usava habilmente as suas ferramentas e construía as peças que seriam o seu único sustento. As histórias de África eram as mais apreciadas, mas as da sua passagem pelo circo ou as suas aventuras em terras de Sua Majestade, também caiam muito bem no goto da criançada. Contava-as como suas, embora os mais adultos, com o passar doa anos, acreditavam que eram apenas histórias, criadas por um cérebro fértil.

«Mestre Pedro... da última vez não foram só 3 leões?» - questionava um petiz mais perspicaz. Mas o velho Pedro não se engasgava e logo dizia, «Claro que disse. Mas da última vez vocês eram ainda muito novos para saberem toda a verdade. Se eu vos dissesse que tinham na realidade sido 6 leões, vocês desatavam a fugir daqui com medo.». A risada era geral.

À noite Mestre Pedro recordava as suas histórias, aquelas que tantos pensavam ser meras fantasias de um velho tonto. Mas não eram e as mais fantásticas e maravilhosas não se atrevia a contá-las ao povo. Pedro recordava aquele tempo em que, com apenas 14 anos de idade, tinha passado na selva africana. Umas férias inesquecíveis, passadas em conjunto com outros jovens da mesma idade e outros um pouco mais velhos. Todos filhos de homens ligados às minas, que gozavam de umas férias normalmente longe da civilização, mais perto das tribos nativas, as amigáveis apenas.

Na mesma tenda do jovem Pedro estava também John, filho de um dos administradores ingleses. John, um pouco mais velho, tinha cabelos loiros e olhos azul-esverdeados. Alto, másculo, simpático, amigo da brincadeira. Tratava Pedro como se de um irmão se tratasse e Pedro via no inglês a perfeição em pessoa. Era costume no acampamento os mais velhos tomarem conta dos mais novos, mas John, ao contrário dos outros, quando se juntava com os da mesma idade, tinha por costume levar com ele o camarada de tenda e Pedro sentia-se importante. Era apenas um puto entre os mais velhos, mas era respeitado pois John impunha esse respeito.

Certa noite o acampamento foi rota de visitantes inesperados e nada bem vindos. Um grupo de leões, talvez mais curiosos do que ferozes, invadiram algumas tendas, pondo os seus moradores a fugir. Pedro, que normalmente dormia como uma pedra, de tão cansado que ficava com as actividades diurnas, nem dera pelo perigo. Quando abriu os olhos deparou-se com uma fera a olhar para ele, olhos nos olhos praticamente. Pedro nem se atreveu a lançar qualquer ruído, na esperança que o nobre visitante desse meia volta e fosse embora, que não o achasse um pitéu.

John percebera que ao se ter afastado da tenta poderia ter deixado inadvertidamente para trás o seu companheiro. Sem pensar sequer na sua própria vida, lançou-se em direcção ao acampamento, agarrou um galho, entrou na tenda e fez frente ao leão. Um rugido entoou e a fera simplesmente saiu, não se sentindo minimamente ameaçada pelo jovem inglês. Pedro levantou-se e abraçou John, o seu salvador. O perigo passou e todos voltaram ao acampamento. Na restante noite, Pedro dormiu seguro nos braços de John. E nas seguintes também, não fosse o leão voltar.

O velho Pedro acabava sempre com lágrimas nos olhos. Depois desse verão não voltou a ver John. Soube apenas que voltou à Escócia e não mais soube dele. Os anos passaram e a imagem do inglês jamais lhe saiu do pensamento. Pedro cresceu, alimentado com uma ínfima esperança de voltar a ver o outro rapaz.

Era Natal. A noite estava fria e Mestre Pedro mantinha-se no velho cadeirão, enrolado na manta de retalhos de que tanto gostava, junto ao lume. Dormitava já há algum tempo quando sentiu uma presença junto a si. Abriu os olhos e uma luz muito branca estava à sua frente, luz que se desvaneceu e fez aparecer uma bela cara, um anjo.


Estendeu a mão em direcção de Pedro e sorriu. Pedro, tão corajoso quanto a sua avançada idade o permitia, estendeu a mão, levantou-se e sentiu que o chão lhe faltara por baixo dos pés. Fechou os olhos e quando os tornou a abrir reconheceu o pano da velha tenda daquele acampamento que nunca esquecera. Tinha de novo 14 anos e estava deitado, seguro nos braços de John.

No outro dia de manhã, o velho Pedro foi encontrado sem vida, junto à lareira com cinzas ainda fumegantes. Um sorriso ficou-lhe estampado nos lábios e a sala cheirava a flores.



Eis mais uma estória, escrita enquanto os ingredientes da minha sopa de legumes cozem. Está na hora de voltar à cozinha e abraçar as tarefas culinárias em falta, pois do velho Pedro, já só restam memórias.

domingo, 3 de novembro de 2013


Por este motivo.

Feriado

Podem tentar acabar com as tradições e até introduzir outras que não nos dizem coisa alguma, mas a verdade é que temos que ser cada um de nós a manter a tradição.

Deve ser o título possível para uma obra literária mais longo de sempre. A verdade é que não será um título mas apenas o início de um pensamento que invade os arquivos onde se alojam as memórias mais antigas.

Dia 1 de Novembro deixou de ser feriado. Foi suspenso, diz a lei. Cá para mim foi eliminado para sempre. Outros feriados foram eliminados do nosso calendário e este será apenas mais um. Outros continuam a ser lembrados e este continuará a ser. Pois a memória é muito mais importante que qualquer lei que nos seja imposta.

Já quase não se vê quem peça o "Pão por Deus", mesmo aqui no campo. Ou pelo menos o número de crianças a fazê-lo é cada vez mais diminuto. talvez porque a miséria afinal não é tanta ou porque a taxa de natalidade é cada vez menor, não se renovando as populações.

Já o dia 2 não deixa de ser dedicado aos Finados. Ao menos que o povo se lembre de visitar cada cemitério, onde jaz parte da história de cada um. Gosto de visitar cemitérios. Não é um lugar tão triste como muitos pensam. Enquanto nos lembrarmos dos entes queridos que por lá repousam, não passarão ao esquecimento. Eu não esqueço de quem partiu e a quem um dia me juntarei. Chamem-me antiquado, mas só assim me consigo definir enquanto pessoa e continuador da tradição.

Não me venham com essas tradições dos outros que comigo não pegam. Nem no tempo de escola eu gostava dessas comemorações e nunca gostei que me fossem impostas. Infelizmente contavam para a nota final e isso fazia-me, apesar de alguma revolta, estudar o assunto e apresentar os trabalhos necessários. Talvez seja a minha costela de camaleão, adaptar-me às dificuldades que aparecem.

Foi um fim de semana de abusos. Claro que me refiro às questões gastronómicas. Jamais posso deixar para trás as deliciosas broas, tradição desta época festiva. venham as broas de chocolate, de mel, batata doce e todas as qualidades existentes. Venham as cobertas com açúcar ou simplesmente recheadas com frutos secos. Não esqueçamos as pevides, os tremoços, as nozes, os figos secos, as passas de uva, os amendoins, pistácios. Se bem que os frutos secos não sejam tão mais quanto o açúcar que compõem as broas. Fecho os olhos nestes dias e esqueço a saúde. Afinal só no final de Dezembro o "regabofe" volta, há tempo para recuperar, penso eu.

Já não se junta a família como eu gostava. Uns partiram e já não voltam, outros estão mais longe e as dificuldades da vida aumentam a distância. Cabe a cada um de nós manter a tradição e tentar que seja o que sempre foi, apesar das adversidades.


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Agradecimento

Agradeço a quem me enviou o contacto dos


mas não tenho


Já um homem não pode escrever sobre vinho. Tenho alguns vícios, mas o alcoolismo não é seguramente um deles.


PS: Escrevo ficção e ninguém comenta, escrevo sobre pinga e é o que se vê. lol




terça-feira, 29 de outubro de 2013

Vinho

Não sou grande especialista em bebidas alcoólicas. Bebo aquilo que me sabe bem e pronto.

Decidi que até aos 18 anos a bebida estaria afastada dos meus lábios. Sempre me considerei inteligente nesse aspecto, talvez até mais responsável. Com o virar para a idade adulta legal (que ainda não sei bem se já atingi a idade adulta real) a coisa "cantou de outro modo". Não sou tipo de andar constantemente alcoolizado mas também não sou rapaz para desconhecer o que anda por aí disponível.



Gosto de bebidas doces, que aqui na zona se diz "bebidas de gaja". As mais amargas deixo-as para as pessoas importantes. bebidas destiladas estão normalmente fora do meu cardápio, salvo raras excepções com alto teor de álcool.

Sou apreciador de bebidas frescas. É impensável beber uma cerveja à temperatura ambiente, excepto cerveja preta, que sabe tão bem fresca como quase quente (à moda inglesa). Gosto de vinho branco, verde branco, rosé, estupidamente frescos claro. E adquiri nos últimos 3 a 4 anos o hábito de degustar vinho tinto.



É claro que não sou grande entendedor em matéria de vinhos, bebo o que me sabe bem (lá estou eu na repetição), mas julgo já saber algumas coisinhas que antes ignorava completamente. Tinto deve-se beber sempre à temperatura ambiente ou quando fresco, não menos de 2 a 3 graus de diferença à temperatura natural. Um copo grande e de boca estreita é sempre melhor, para se desfrutar do aroma do líquido. Garrafas devem ser abertas com alguma antecedência para deixar o vinho respirar.

Em matéria de regiões vinícolas sou muito apreciador do Alentejo, Ribatejo e Estremadura, reservando o Douro para o famoso vinho do Porto, mais doce e alcoólico, para ser apreciado fora das refeições. Porém não deixo de fora qualquer região portuguesa, pois considero que este velho rectângulo luso é ainda um dos melhores produtores desse néctar dos deuses (somos todos deuses cá na terra, desde que saibamos apreciar o néctar).



PS: Nas próximas publicações voltarei à ficção, já me estão a exigir que deixe de falar de mim. (eu sei, sou muito aborrecido né?)


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Memórias musicais

Já devo ter escrito no blogue que em assuntos musicais sou completamente eclético. Não olho a estilos de música, salvo uma ou duas excepções, pois desde que me entre no ouvido e custe ou nunca mais saia, já é o que interessa. Desde música clássica, rock, pop, por vezes jazz, folclore nacional e internacional, sertanejo, samba, ectecectera.

A moda das rádios temáticas em Portugal leva-me a escolher meia dúzia de postos que se revelam de muito interesse musical. É o caso da M80 (músicas dos anos 70, 80 e 90), STAR FM (música da mesma época e concorrente da anterior), Rádio Cister (rádio regional de Alcobaça) e Rádio SIM (pertencente ao grupo Renascença).

Penso que foi na semana passada que ao viajar de carro fiz uma busca pelas rádios disponíveis e deparei-me com uma das mais belas músicas que conheço, transmitida pela rádio SIM e que me traz muitas recordações do final dos anos 80 e anos 90. Refiro-me ao fado "Olha a mala" tão bem entoada pela fadista Celeste Rodrigues, de quem eu acho que é dona de tão melodiosa voz. Não teve o sucesso da sua irmã Amália, mas apesar de ter beneficiado dos laços fraternais (a meu ver, claro) não lhe fica muito atrás.

"Olha a mala" era o tema que acompanhava um dos mais antigos concursos de rádio, o "Jogo da mala", da Rádio Renascença. O país quase parava no naquele posto radiofónico. Cada ouvinte vivia com a esperança de ser o feliz contemplado de uma milagrosa chamada, bastando para ganhar dizer a quantia certa e a frase, normalmente publicitária.

Deixo aqui um registo da música em questão. Infelizmente não encontrei no youtube a versão original da Celeste Rodrigues, mas sim esta gravação de um programa televisivo recente (4 anos ainda é recente cá para o je).

Espero ter avivado algumas memórias, pelo menos daqueles que são meus contemporâneos, referindo-me à época em questão.


E já agora deixo esta pérola recente. Um fado a duas vozes femininas.





domingo, 27 de outubro de 2013

Aborrecido

Ter um blogue e não saber o que escrever é algo que me aborrece. Não por falta de ideias, talvez por serem tantas não consiga escolher uma só. Faz-me falta uma boa diarreia literária, uma expulsão de palavras que estão presas dentro deste meu corpo. Tento esforçar e nada de bom sai, nada de interessante.

O fim-de-semana correu bem. Consegui fazer uns biscates na minha casa de origem. Uns consertos necessários que urgiam ser realizados. Aproveitei o bom tempo e aproveitei bem. Este domingo mais alguma coisa foi feita. Acima de tudo houve tempo para uma caminhada com a cadela ribatejana. A bicha passa uma semana toda a desejar que eu volte a casa e que saia com ela. Tal já não acontecia há duas semanas.

Aproveito as caminhadas não só para cuidar da saúde, ou pelo menos tentar, mas também para pensar sobre a vida, conversar comigo próprio. Já diz o Mark que "somos os nossos melhores conselheiros". Concordo em parte com ele, já que por vezes, demais ultimamente, me auto aconselho mal. Chego mesmo a brigar comigo próprio, felizmente as reconciliações são sempre muito saborosas.

Invento novas histórias, entremeadas com as brincadeiras de uma cadela cheia de energia, que salta e corre e se atira a mim, muitas vezes com alguma brutidade. No final acabamos cansados mas satisfeitos. As histórias que invento não chegam a passar para o papel, sendo eu o único a conhecê-las. É o meu momento egoísta.

As minhas histórias nem sempre têm finais felizes, muito parecidas são com a vida. Às vezes volto atrás e refaço-as, umas vezes resulta, outras não. Mais uma vez tudo a ver com a vida, só que nem sempre posso voltar atrás e remediar, pois por vezes remediar acaba sempre por ter um pior resultado. Mais vale ir em frente e aceitar as consequências. É isso que me faz crescer. Já diz a velha frase, quem não erra não vive realmente porque não aprende com os erros. (inventado por mim)

Afinal já escrevi alguma coisita, sinal que a fase de aborrecimento está a passar. Na verdade tive uma ajudita via facebook. Obrigado Miguel.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Impulso

Já estava preparado para me deitar quando me deu uma vontade súbita de escrever. Voltei a apagar o candeeiro da mesinha de cabeceira, dirigi-me à sala e liguei o computador. Aproveitei para ir à gaveta dos talheres, na cozinha, para buscar dois quadrados de chocolate com setenta porcento de cacau e grânulos de casca de laranja. Tenho abusado do chocolate mas não havendo outras emoções, lá me vou desenrascando com o alimento do pecado.

Estive a ver um filme francês. "Le temps qui reste". Em tempos baixei-o da internet mas no domingo encontrei o DVD a um preço incrível e não resisti. Não vou descrever a história pois não sou crítico de cinema. Posso apenas dizer que se trata de um argumento difícil. Voltarei a vê-lo, apesar de cinema francês não estar nas minhas preferências. Exceptuo apenas Louis de Funes, que tive o prazer de rever recentemente, num filme também a preço bastante convidativo, apesar de se tratar de uma obra de 1958. Bons filmes se fizeram naquela época.

O dia acabou por ser um pouco menos cansativo. A manhã foi reservada à família, enquanto que a tarde foi dedicada ao "castelo". A obra não pára, assim haja boa vontade da minha parte. É nestas alturas, no meio de furos nas paredes, fios eléctricos, tintas, que crio muitas das histórias que coloco posteriormente em papel. As personagens aparecem facilmente e muitas vezes, tenho a sensação que falam comigo ali mesmo. São a minha companhia imaginária. Há quem chame a isso de loucura.

De médico e de louco todos temos um pouco. O velho mas actual ditado popular aplica-se inteiramente à minha situação. As loucuras que surgem são normalmente curadas à força de tarefas caseiras. Tarefas prazerosas, dedicadas, construtivas. É a minha parte de médico, auto-psiquiatria.

O dia termina e em breve começará outro. Quanto a mim, deixo-me levar pelo tempo e pelas letras que aqui deixo. Amanhã será um novo dia e já está totalmente programado. Felizmente os programas nem sempre se cumprem. Não faz mal, o que interessa é aproveitar o tempo que resta.

domingo, 20 de outubro de 2013

13

13 pratos, amor, livros, risos, conversa.

Simples momentos que vale a pena serem vividos...


... e sem superstições ou quaisquer outras complicações.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Pareço ser...

... inteligente.


A minha modéstia rural não me permite concordar totalmente com a ideia de me considerar inteligente. É certo que não sou pessoa que se limita ao seu espaço, tenho muitas curiosidades e isso tem-me feito partir em busca de respostas. É certo que nem preciso sair de casa, pois tenho um mundo à distância de um ecrã de computador.

É também certo que só ter este mundo à disposição nem sempre me chega. De que vale ter um mundo tão perto quando nem sequer o ar de outras paragens se respira. O ar não é igual em todos os lugares do mundo. Com maior ou menos quantidade de oxigénio, com odores agradáveis ou não.

Confesso que preciso ler mais. Limito-me a histórias de conspiração, livros que facilmente chegam às prateleiras mais altas, ao destaque. Preciso ler clássicos, pois acho que esses têm as melhores respostas às perguntas mais complicadas. Nem sei como consigo escrever sobre certos assuntos, quando as dúvidas são tantas e precisam ser esclarecidas.

Dizem que tenho boa conversa, que conquisto com ela. A escrita principalmente. Que sou organizado nas respostas, que escrevo rápido, não dando tempo ao outro de reflectir sobre as frases com que "ataco". Deve ser a fome de conversa que invade todo o meu ser e que me faz fartar das paredes que me ouvem dia após dia.

Quantas vezes o bom humor afecta os sentimentos, as ideias. Quantas vezes a palhaçada invade as conversas mais sérias. Uma defesa apenas dizem alguns, uma forma de me esconder. A verdade é que os mais inteligentes despedaçam facilmente a máscara com que tento tapar a minha verdade. A verdade que tento esconder desesperadamente e que consigo vezes sem conta, tantas quanto aquelas que me exponho erradamente.

Não sou o ser tão inteligente como costumam dizer. Não sou o conhecedor da experiência que por vezes os meus textos parecem querer demonstrar. Antes pelo contrário, apenas me limito a fazer minhas as experiências daqueles que muitas vezes não têm coragem de as expressar ao mundo. Sou apenas um narrador ou contador de histórias, apesar de ter consciência que tais experiências podem de alguma forma ajudar alguns indecisos.

Pareço apenas ser inteligente. Afinal...



Chegará o dia...

... em que teremos finalmente a oportunidade de viver os nossos sonhos.

Entretanto fica a distância que nos separa...


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Forreta

Já devo ter escrito algo sobre o assunto mas deu-me a preguiça de ir à procura. Sim sou forreta e tenho algum orgulho nisso. Mas não sou forreta por não gostar de gastar dinheiro, bem pelo contrário, gosto muito de o gastar. Simplesmente não gosto é de o investir em coisas banais, como roupas de marca e outras porcarias semelhantes ou tecnologias.

Não me interesso minimamente por moda. Não quero saber sequer se as calças combinam com a camisola. Não me posso dar ao luxo de andar sempre a escolher, compro o que me serve e esse é sempre o maior problema. Também não gosto de calçar caro, afinal é para andar pelo chão e o caro hoje em dia já não é sinal de boa qualidade, antes pelo contrário, é apenas design.

Não tenho um telemóvel de última geração, daqueles que só por acaso até servem para fazer chamadas. Não gosto de i-pods, i-pads e outras coisas assim. Um telemóvel serve para falar com os amigos e para poder mandar mensagens, mesmo as mais parvas. Nada de complicações e preços exagerados.

Não compro camarão todos os dias, mas confesso que o gosto de fazer em alturas especiais: algumas festas ou quando me apetece. Não sou de culinária fina mas também não me deixo ficar por pratos usuais. Gosto de inventar, misturar ingredientes, obter novos sabores, aproveitar restos.

Não compro livros todas as semanas, nem todos os meses sequer. Gosto de comprar um livro dois ou três anos depois de ser novidade. Não é só uma questão de preço, gosto de ler sem ser constantemente inundado por comentários vindos de todo o lado. Quando deixa de ser novidade o povo esquece e eu agradeço.

Não tenho os CD's que estão na berra pois farto-me de ouvir sempre as mesmas músicas nas rádios nacionais. Tocadas vezes sem conta, até as minhas preferidas deixam de me interessar. Hoje comprei um CD do Nat King Cole, um dos meus cantores americanos favoritos. Apenas € 1,90. Uma pechincha tendo em conta a qualidade das músicas que contém.

Sou adepto das lojas dos chineses e não tem a ver unicamente com os preços por lá praticados. Bem sei que estão livres de impostos e que quem os fabrica são explorados diariamente. Gosto de ver a diversidade, de ver que um povo faz de tudo para sobreviver, até copiar as ideias dos outros. Não compro o que acho que não tem um mínimo de qualidade, mas compro o que encontro noutras lojas a preços exorbitantes, quantas vezes devido a marcas registadas e que afinal são fabricados exactamente no mesmo sítio que os produtos das lojas chinesas. As etiquetas não enganam.

Não faço férias no estrangeiro e só ultrapassei a fronteira terrestre portuguesa duas vezes na minha vida. Temos tanto que ver por cá, que me recuso a sair sem antes ter a oportunidade de visitar o bom que o nosso país oferece. Não saio mais porque existem locais que não devem ser apreciados a sós. Não faço intenção de me meter dentro de um avião nos próximos tempos. Não é medo de voar, é apenas a certeza de que se Deus quisesse que eu voasse, teria nascido pássaro.

Gosto de receber pessoas em casa e de lhes proporcionar conversa e algo que lhes encha as barrigas, que lubrifique as gargantas. Um doce, um salgado, uma bebida mais ou menos caseira. Gosto de investir nos meus hobbies, caseiros como sempre. Gosto de sair de bicicleta e percorrer estradas, transpôr montes. É talvez o meu hobbie mais dispendioso, mas mesmo sendo forreta não o deixo. Gosto de tantas coisas, tenho tantas ideias que infelizmente não podem ser concretizadas. Com tempo vai.

Dizem que sou forreta. Sou forreta e bom rapaz. Só não sou forreta com as letras, pois essas, por mais que eu tente, não me deixam em paz, não permitem que eu as poupe. Sou assim e desafio quem me queira mudar.


domingo, 29 de setembro de 2013

Autárquicas 2013

O administrador deste blogue já cumpriu o seu dever cívico.



E tu? do que estás à espera?


terça-feira, 24 de setembro de 2013

textos inacabados (1)

Era minha intenção parar de escrever por uns dias mas o "bichinho" não me deixa em paz. Inauguro aqui uma série de textos que ficarão inacabados, possivelmente para sempre. Um amigo diz-me que serei um escritor famoso por não terminar o que começo. Tem sido assim em muitos momentos da minha vida, mas isso é outra conversa.

Aproveitando a época eleitoral actual comecei a escrever uma história com a campanha como tema de fundo. Os nomes das personagens escolhidas vieram à cabeça com naturalidade, por isso não devem ser confundidas com possíveis conhecimentos que eu tenha. Gosto dos nomes e pronto.



Apenas mais um dia de campanha eleitoral numa movimentada rua da cidade. Uma multidão seguia o candidato, cabeça de lista para o principal órgão executivo da região. Marco, um jovem de apenas 22 anos, encontrava-se no meio da confusão. Uma bandeira na mão esquerda, na outra um megafone, a mandar palavras de ordem, de apoio. Os seus cabelos, orgulho daquele rapaz de pele bronzeada, resultado de um verão passado na praia, esvoaçavam com a brisa que se fazia sentir, naquela tarde praticamente outonal.

Apertos de mão, abraços, conversas, promessas certamente faltas. Tudo normal para uma campanha eleitoral em que a imagem se torna cada vez mais importante, deixando para trás as qualidades que realmente interessam para o posto que será ocupado. E Marco apoiava tudo aquilo. Não por ser igual mas por querer ser diferente. Sonhador dizem alguns; força de vontade em querer mudar, dizia para si próprio o rapaz, que quase rouco, seguia o cortejo, quantas vezes arrastado, quase no ar.

Uma rua mais larga surgiu de repente. A multidão espalhou-se e Marco pôde finalmente tocar com os pés no chão. Decidiu parar um pouco para recuperar o fôlego e sentou-se na primeira esplanada que encontrou.

“Uma água fresca faz favor”, pediu Marco ao empregado que rapidamente chegara à mesa. A garrafa de litro e meio depressa veio parar à sua beira. Pensou para si que era um exagero, mas a verdade é que num ápice virou três copos quase a entornarem. Sabia-lhe bem a frescura naquela tarde ainda quente. Olhou em volta e deu-se conta de que a multidão tinha dispersado quase na totalidade. Talvez tivessem ido em busca de sombras ou simplesmente invadido os cafés instalados em redor. O candidato meteu-se pelo centro comercial da esquina e Marco ficou para trás. Nem se preocupou com a campanha, afinal estava ali tão bem naquela sombra. “Amanhã há mais”, disse baixinho.

“Desculpe, pode-me dizer onde fica esta rua?”. Marco virou-se para a direita em busca da boca por onde saiu aquela pergunta, Junto de sim, um rapaz aparentando a mesma idade, olhava-o com um papel na mão, esperando uma resposta. Notava-se o aspecto de turista pois as roupas frescas, mochila, óculos escuros e uma ténue mancha de suor assim o comprovavam. Marco tentou explicar mas atrapalhou-se e perdeu-se nas indicações. “Olhe o melhor é eu levá-lo até lá ou ainda se perde, já que vou para aquela zona também”, prontificou-se Marco.

A malha urbana era realmente demasiado complicada de se explicar. Marco meteu por aquelas ruas que conhecia, talvez querendo até mostrar o seu lado de guia turístico ao rapaz que a seu lado ía, atento às explicações que lhe eram dadas sobre alguns edifícios. Chamava-se Chico e estava a descobrir a cidade. Preferia o final do verão, antes de começar as aulas na faculdade, onde estudava arte e design.


“Olha, eu também estudo lá”, disse Marco. “Eu sei... já te vi por lá”, respondeu Chico com um sorriso nos lábios e tirando os óculos de sol, mostrando os lindos olhos que por trás deles se escondiam. “A verdade é que conheço bem a cidade, mas foi um pretexto que encontrei para falar contigo”. Marco ficou espantado...


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Momentos musicais

Depois dos testamentos literários que tenho andado aqui a descarregar é altura de voltar a momentos mais culturais. A escolha caiu em António Zambujo, cuja voz me acalma.


Descobri recentemente um outro cantor que me era totalmente desconhecido, talvez por estar um pouco fora dos mercados musicais com que somos constantemente inundados. Falo de JP Simões.


E já agora recordar José Mário Branco. para podermos apreciar o presente nunca podemos esquecer o passado. Principalmente quando o passado é tão presente.






domingo, 22 de setembro de 2013

O final prometido

Chegou a hora de terminar um conto que escrevi recentemente e que já tinha publicado as seis partes iniciais, faltando unicamente duas. Republiquei todo o texto para dar algum nexo ao que faltava publicar. Peço perdão pelo "testamento" que vos deixo, mas podem sempre ler apenas o que vos interessar.



     Capítulo 1 – O avião

Tardiamente percebi que a tua ausência seria motivo suficiente para enlouquecer. Naquela manhã acordei e percebi que não estavas comigo. Que tonto fui. Podia ter largado tudo e com medo quiçá de mim próprio, deixei-te partir. Tomei um garrafão de coragem, enchi uma pequena mala de roupa e saí de casa. O banco estava apinhado naquela manhã. Dia de pagamento das reformas. Levantei quase todas as minhas economias deixando o gerente daquela dependência bancária de boca aberta. Já me conhecia há muitos anos e sabia o quão sovina eu sempre fora. Teria enlouquecido?

O trânsito estava anormalmente lento. E eu, que queria chegar rápido ao aeroporto, desesperava, cada vez que o taxista pisava o pedal dos travões. Praguejava para mim mesmo, ao contrário do motorista que, com a sua rudez, se esquecia constantemente que eu estava já ali atrás.

Entrei apressado por aquele espaço, que embora não me fosse desconhecido era a catedral da confusão. Apressei-me para a bilheteira e adquiri o tal bilhete de avião. Estava já à porta de embarque quando me lembrei que nunca tinha tirado os pés do chão. Queria voltar atrás. Afinal se Deus quisesse que eu voasse tinha-me mandado à terra como pássaro. Venci o meu medo pensando na razão que me tinha levado até ali, estiquei o peito e mesmo nervoso, disse para mim mesmo que o medo é coisa que não me assiste (onde é que eu já li isto?!).

Todo eu tremia, agarrado com todas as minhas forças ao banco. Quem me dera que aquele banco tivesse mais cintos, um só parecia-me pouco. Desejei que aquele voo fosse como aqueles que se vêm nos filmes de ficção científica, em que se adormece numa cápsula e só se acorda no destino. «É a primeira vez que voa?», perguntou-me a senhora que estava a meu lado. Com alguma dificuldade abri os olhos e visualizei aquela senhora idosa toda vestida de preto e branco. À primeira vista parecia um pinguim mas era apenas uma carinhosa freira. Pousou a sua engelhada mão sobre a minha e disse «Deus está connosco e nada de mal acontecerá!».

Afinal aquilo lá em cima não era o que eu pensava. Fitei um ponto no banco da frente e assim me mantive algum tempo. Uma voz doce saiu das colunas a avisar que teríamos que voltar a colocar os cintos. Voltar?! Eu nem sequer o tinha tirado ainda. Livra. Sentiu-se turbulência e fechei de novo os olhos. Todo o aparelho tremia e eu agarrava-me com todas as forças, quase fixando os meus joelhos ao banco da frente.

     Capítulo 2 – A porta

Quando voltei a abrir os olhos não vi ninguém. Mantinha-me no meu lugar mas a meu lado já não estava a freira e o avião parecia estar parado. Não se ouviam as turbinas e dentro do espaço havia uma espécie de nevoeiro. Uma voz doce. «Então vai ficar aí por muito tempo? Os outros já sairam». Virei a cabeça e vi talvez o rapaz mais bonito com quem já me tinha cruzado. Cabelos louros, ouro puro. Olhos azuis, profundos. Lábios rosados, carnudos. Nariz na proporção correcta, um sonho. Bata branca, imaculadamente lavada. «Já parámos?», perguntei. Aquela linda cabeça acenou. «Estamos à tua espera lá fora. Vem comigo».

Levantei-me surpreendentemente devagar. Afinal desde a altura que entrei naquere aparelho diabólico, que desejava sair o mais rápido possível. Cheguei à porta, não havia escada. «Mas como raios vou eu sair daqui? Onde está a escada?». Aquele jovem lindíssimo olhou para mim, pegou a minha mão e avançámos para o abismo. Contrariamente ao que eu esperava flutuámos suavemente até atingirmos um tapete tão imaculadamente branco como a bata e as asas do meu “transporte”. «Asas?! Mas afinal onde é que eu estou?!»

A paz invadiu todo o meu corpo. Quando abri os olhos quase gritei. Afinal era apenas a velha freira que me olhava de cima. «Então meu filho, que se passa?». «Onde é que estamos?». «No céu meu filho, no céu.». «No céu? Então não era suposto já estarmos no chão?!».

«Meus senhores, para quem ainda não tenha percebido, estão todos mortos. Isto é o céu e daqui a pouco chegará o transporte que os levará ao portão número 1. Para quem não saiba, o portão número 1 é guardado por S. Pedro. Tenham cuidado que nem sempre está de bom humor. Pudera... é dono de meio mundo lá na terra e está por aqui preso a guardar o portão do paraíso». Aquela voz rofenha, claramente de quem já fazia esta apresentação fazia alguns séculos, dava todas as indicações. «Crianças vão à frente e depois as mulheres. Os homens esperam e se não houverem lugares vão de pé.» Olhem, no céu também existem problemas com os transportes públicos. Será por causa da Troika?!

     Capítulo 3 – Espera

S. Pedro parecia visivelmente cansado quando me apresentei. Nem consegui dizer o meu nome pois interrompeu-me na hora. «Sei bem quem és! Está tudo escrito aqui no livro da vida e da morte.» Fitou-me. «Ora vamos a ver... filho de fulano e beltroa... católico... menos mau... solteiro... meia dúzia de pecados menores... umas multas de trânsito que já não serão pagas... parece que o banco perdeu um cliente... ficaste a dever no restaurante no Manuel?!» Corei. «Logo do Manuel? Um dos nossos bons fornecedores... que o meu patrão o perdoe.»

A sala estava bem decorada. S. Pedro mantinha-se junto a um velho computador resmugando. O software estava um pouco desactualizado e a velocidade da máquina deixava muito a desejar. Os dados pareciam estar correctos mas o cálculo não estava correcto. Constantemente aparecia uma mensagem, dando conta de um erro. «Raios para esta tecnologia. Onde é que eu guardei o manual de instruções?! Ah, está aqui junto à Biblia.» S. Pedro abriu um pequeno volume de papel já amarelecido e procurou no índice a página dos erros. Ajeitou os óculos e olhou para mim por cima das lentes. Pegou noutro volume, desta vez de capa lilás, folheou-o, leu o que estava escrito e disse «Oh meu Deus... mais um?!»

O corredor parecia não ter fim. Quadros decoravam as paredes. Paredes?! Na realidade pareciam pairar no ar. Molduras de vários estilos envolviam pinturas antigas. De quando em vez apareciam uns esgatafunhos. Aproximei-me de um quadro e por baixo estrava escrito “Picasso – 2013”. Parámos. A fila era grande, quase não se via o início. O anjo mandou-me esperar.

Mais uma sala, mas desta vez a decoração era deplorável. Bancos corridos dispunham-se ao longo do espaço. Centenas de almas estavam sentadas à espera. Sentei-me junto a um velho de cabelos brancos, que me tirou todas as medidas num ápice. «Acabaste de chegar né?» perguntou-me. Respondi afirmativamente. «Não te preocupes, daqui a uma eternidade vais ser atendido.»

     Capítulo 4 - Reclamação

Acho que não aqueci lugar pois fui chamado de imediato. «Terceiro gabinete à esquerda.» Disse-me um rapaz bem apessoado. Segui, entrei no tal gabinete e sentei-me. O assento estava frio, mármore. Na secretária, de carvalho velho, um homem, de cabeça virada para os papéis, resmungava. Parece que no céu estão todos mal humorados. Ao que parece, pelo que me disse o velho, as contigências financeiras obrigaram a autentar o número de horas de trabalho. Até os arcanjos já pensavam em fazer greve. «Sabe porque está à minha frente?» perguntou-me. Acenei a cabeça negativamente. «Está aqui porque o raio do software do cálculo do coeficiente de entrada no céu deu erro de novo. E quando dá erro mandam sempre aqui para o velho Joseph Ratzinger. Raios de sorte a minha. Tanto que eu lutei em vida e agora isto.»

«Nos termos da adenda ao artigo 6969 do regulamento de acesso às portas do paraíso, que muito foi contestado mas que o patrão foi resolutivo, todos os homossexuais têm o direito de se arrependerem. Por isso tem uma de duas opções: ou se arrepende imediatamente ou ficará na sala à espera que se arrependa.»

Já esperava há uma eternidade quando me lembrei que sendo a burocracia do céu tão parecida com a da terra, decerto haveria uma solução para o meu problema. Lembrei-me então de ir até ao guichet e pedir o livro de reclamações. Um trovão iluminou o tecto e todos olharam em minha direcção. O homem, de olhos esbugalhados, abriu a boca. Quase dava para lhe ver o estômago. «Livro de reclamações?!».

Indicaram-me uma sala de porta verde. Não a consegui abrir à primeira, de tão enferrujada que estava. Talvez fizesse muito tempo que não era aberta. Pelo menos estava limpa. Um banco iluminado, de tecido felpudo, esperava por mim. Sentei-me e como por magia, apareceu uma secretária, uma caneta e uma folha de papel.

Assim que pousei a caneta no papel para escrever a minha reclamação, um novo trovão entoou pelo espaço. Desta vez o susto foi ainda maior. E do meio de uma nuvem apareceu um homem de toga branca debruada por uma renda azul celeste. «Com que então não estás satisfeito com as regras da casa?!»

     Capítulo 5 – Regulamento

O jardim era mais maravilhoso do que tudo o que já vira anteriormente. Árvores enormes formavam um claustro, rodeando um lago com água tão clara que se viam os peixes e as pedras lá dentro. Quando nos aproximámos daquele espelho um peixe veio à superfície, como que a cumprimentar o homem de toga. Aves esvoaçavam pelo ar. Pássaros de mil e uma cores, brilhantes. Sentámo-nos sobre uma pedra e conversámos.

«Quando escrevi o regulamento de acesso às portas do paraíso tudo era mais fácil», explicou-me Deus. «Não havia confusão porque quase não haviam pessoas. Com o passar dos séculos o caso mudou de figura. Para começar os homens tornaram-se fúteis, interesseiros, desordeiros. Não cumpriam as regras que lhes impunha». Olhei-o. «Mas não é suposto o homem gozar do livre arbitrio?!». «Sim, era essa a ideia inicial. Pelo menos pensava eu que era, mas mudou muito o ser humano. Então tive que ir mudando as regras, tentando adaptar o regulamento à realidade. Durante muitos séculos não foram necessárias grandes mudanças mas ultimamente a coisa pia de outra forma.». «Então e porque é que nós somos diferentes? Não merecemos o teu amor de igual forma?», perguntei. Deus levantou-se, espreguiçou-se e voltou a sentar-se. «Qualquer pai deve amar os seus filhos, independentemente dos disparates que façam ou dos caminhos que tomem. E eu não sou diferente. O problema é que até o paraíso se tornou político.». Achei a expressão estranha. «Os anjos e os arcanjos passaram a ter opiniões diferentes e os santos vieram colocar ainda mais questões. Vê o caso de Pedro. Tem dias que ninguém o consegue aturar. É a velhice, dizem alguns... mas eu acho que é mesmo casmurro. Se calhar é defeito de ter sido pescador.». Mandou uma gargalhada sonora que até um unicórnio se assustou. «E não era dos melhores até eu o ter ajudado a pescar com fartura.»


«Então quer dizer que tens um regulamento mas não concordas com ele. Parece-me um pouco estranho, uma vez que és o criador de tudo.». Deus fitou-me. «Pois. A realidade é que aqui no céu apesar de eu governar como todo poderoso não sou nenhum ditador. Já foi o tempo em que eu tinha que decidir tudo. Um dia decidi que devia partilhar a responsabilidade. Numa visita à terra, encontrei uma rapariga bonita e perdi-me de amores por ela. Ora como era minha intensão partilhar o governo do céu, qual a melhor solução além de encontrar um herdeiro? E assim nasceu Jesus, o meu filho e herdeiro.»

     Capítulo 6 – Patrão

Perdia-se de vista a mesa onde tomávamos chá. Deus no topo, que confessou ter uma predilecção especial por pastéis de nata, tinha à sua frente o que deveriam ser pelos meus cálculos, cerca de duas dúzias de tal iguaria. Eu não tinha fome e fiquei-me pelo delicioso chá de uma mistura de ervas, mantida em segredo, resultado de séculos de experiências do arcanjo Gabriel. Continuei a conversa. «Mas Deus e que faz Jesus afinal?». «Olha meu filho, actualmente substitui-me nas minhas visitas a todos os mundos que criei. A minha idade tem-me obrigado a ficar um pouco mais pelo paraíso. A minha idade e S. Lucas com as suas manias de médico. Vê lá que agora inventou que me devo tornar vegetariano.» Nova gargalhada entoou pelo espaço, assustando desta vez um par de pombas brancas que estavam pousadas num candeeiro de pé alto, junto a um velho telefone de manivela. «E Jesus não é um filho obediente?», inquiri. «Olha, é como o tempo: uns dias bons, outros maus. Mas também tem boas qualidades. Foi ele o responsável pela informatização do paraíso. Organizou a biblioteca e criou uma aplicação que pondera as boas acções e as más, para avaliar a entrada no paraíso.». Sorri. «Ou seja, aquela aplicação que S. Pedro tando desgosta.». «Efectivamente. Mas a verdade é que o Pedro agora até tem mais tempo para fazer outras coisas, como pintar, que é uma grande paixão.»

«Uma coisa me deixa intrigado. Como é que o paraíso tem tanto espaço para todos os que já morreram ao longo nos milénios?». «Ainda bem que me fazes essa pergunta, meu filho. Na realidade o paraíso não é interminável e por vezes há a necessidade de enviar alguns lá para a cave, que é o nome carinhoso que aqui damos ao inferno. É claro que a aplicação informática tem dado uma boa ajuda e aqui só para nós tem dado bastante resultado. Uma outra solução é mandar de quando em vez as almas de novo para a terra.». Olhei-o. «Reencarnação? Existe?!». «Claro que existe meu rapaz e é uma das minhas maiores criações. Assim vou-me livrando dos excedentes e dou segundas oportunidades a quem mais merece. Algumas almas precisam de viver várias vezes para que a entrada no paraíso não seja posta em causa.». «Tal como a minha está a ser?», perguntei.

«Meu filho, o teu caso é especial. Quando atribui o livre arbitrio ao homem sempre pensei que ele não o usasse para usurpar a natureza. Esqueci porém que a natureza por si só é mutante, ganhou vontade própria. Então decidi não me preocupar muito com o assunto pois acredito que o amor é a par da amizade, o mais importante sentimento que existe.». «Então porque é que o meu caso é especial?». «Acontece que com a criação das religiões na terra, os membros criaram regras próprias. Umas formam-me atribuídas por tradição e outras por subversão. Ora, muitos desses legisladores quando chegaram cá acima, quase reviraram a casa. Para haver harmonia debaixo do meu tecto lá tive que ceder em alguns assuntos. Daí ter criado algumas adendas ao regulamento. Se por um lado os calei, por outro fiz ver que quem tem a última palavra acabo por ser sempre eu.»

     Capítulo 7 – Paraíso

Deus não mora no Paraíso  Prefere ficar “fora de portas”. Diz que assim tem mais descanso e concentra-se melhor, algo que não acontece lá dentro devido às maravilhas que criou . Maravilhas que eu só podia imaginar. Mesmo assim todo aquele espaço exterior era deslumbrante. Os pequenos oásis rodeados de árvores e relva tão espantosamente verde. Ali habitavam além do Criador, o seu filho Jesus, S. Pedro e todo o restante staff. Haviam porém alguns que morando dentro do paraíso, exerciam actividades do lado de fora. Era o caso de alguns anjos e as ajudantes femininas do palácio real.


A nossa conversa porém tinha alcançado um impasse. Os nossos pontos de vista pareciam estar algo distantes. «Mas Deus, porque é que devo arrepender-me de algo que me fez tão feliz na terra? Não é isso que tu queres? Que sejamos plenamente felizes?». «Meu filho, como já te expliquei, aqui também tenho que ceder um pouco nas minhas convicções, mais não seja de forma aparente. Se eu for totalmente a favor, os mais ortodoxos não me largam e se eu for contra os progressistas dão-me cabo do juizo. Assim encontrei um meio termo, obrigo as almas a arrependerem-se da vida que levavam na terra e assim ficam todos mais ou menos satisfeitos.». «Mas isso não é justo para mim nem para todos os que atrás virão. Nem sequer para os que já estão à tanto tempo à espera naquela sala sem fim.», argumentei. «Como vocês dizem lá não terra “Roma e Pavia não se fizeram em um dia”, logo há que esperar.». Olhei-o indignado. «Esperar o quê? Que mudes de opinião ou que alguém se canse de esperar e contra todas as suas próprias convicções se arrependa do mal que nunca fez?». Deus encolheu os ombros e seguiu em frente.




     Capítulo 8 - Tribunal

A sessão do tribunal começou com a apresentação do caso perante o colectivo de juízes, presidido pelo filho de Deus, Jesus. Acompanhavam-no São Paulo à direita e Santo António do lodo oposto. A minha defesa era um anjo com pouca experiência. A acusação, um velho e batido anjo, que só ainda não tinha sido promovido a arcanjo devido à sua suposta amizade com o "morador lá de baixo", mais conhecido por Lúcifer.

O julgamento era apenas uma fachada, tal como Deus já me tinha avisado. Eu, o réu, há muito que estava condenado. Praticamente desde o dia que cheguei às portas do Paraíso. Homossexuais ou pedem perdão e renunciam à sua infame natureza ou irão pura e simplesmente ter à "cave".

O veredicto não foi assim qualquer surpresa. Por não me ter arrependido, só restava um alçapão cuja abertura me levaria numa abrupta viagem até ao Inferno. Recurso estava fora de questão e Deus avisara-me antecipadamente que só interferia com a decisão do tribunal em casos muito especiais. Claramente o meu não era, apesar de raro.

Tinha sido Deus a criar o céu e a terra, os planetas, as estrelas, o Paraíso e o caminho para o andar de baixo. Reservou-me porém uma pequena surpresa, prova da simpatia que cultivava por mim. O túnel da descida tinha num ponto bem localizado uma bifurcação secreta, uma espécie de saída que o Criador tinha inventado. Avisou-me que não deveria contar a ninguém, pois não queria confusões desnecessárias com os altos magistrados do Paraíso.

Despedi-me. "Pode ser que no teu regresso haja mais abertura para o teu caso" sussurrou-me ao ouvido, seguido de um sorriso e um piscar de olho. O alçapão abriu-se de repente e lá fui eu por ali abaixo. Tal como planeado, a bifurcação secreta estava já aberta, à minha espera. Caí desamparado por meio das nuvens e a terra aproximava-se cada vez mais de mim. A velocidade aumentava e só pensei que me iria estatelar completamente num piso duro. Gritei.

"Pedro... acorda! Que se passa?". Quase dei um salto na cama. Levantei-me e sentei-me. Aparvalhado olhei em redor. Estava completamente suado e a meu lado Marco olhava para mim estupefacto. "Não se passa nada amor", descansei-o. Aproximei os meus lábios dos seus e proporcionei-lhe um demorado beijo. Deitá-mo-nos e abraçados adormecemos. Antes porém olhei pela janela. O céu estava limpo e lá longe, na imensidão do espaço, uma estrela brilhou mais, como se de um piscar de olhos se tratasse.

FIM